Um dia, quando a neve se acumulava no alto das montanhas fora de Albuquerque, perto do Pico de Sandia, meu pai Steve e minha mãe Clare nos levaram para andar de tobogã. Steve estava trabalhando na contígua Base Aérea de Kirkland, onde era o oficial executivo e o segundo homem mais importante naquilo que se chamava "Armas Especiais da Aeronáutica Naval". Isto significava energia atômica, ainda então um assunto misterioso que não podia ser discutido em casa. Era o Inverno de 1955 e eu tinha completado doze anos havia poucas semanas. A minha irmã, Anne, que estava se tornando uma espécie de menina traquina e gorda, faria nove anos menos de um mês depois. Andy, meu irmão, um pouco mais robusto do que eu, tinha metade da minha idade.
O quadro era a simplicidade do Inverno: ao fundo, as montanhas de Sange de Cristo, no Novo México, cobertas de neve; em primeiro plano, bochechas rosadas, cabelos escuros ondulantes quase escondidos por gorros quentes – éramos crianças saudáveis com casacos grossos, subindo em tobogãs de madeira. Não estava nevando, sentia-se apenas as rajadas secas e ardentes sopradas pelo vento da montanha. Na extremidade do declive, coloquei Andy na parte da frente do trenó. Anne sentou-se logo atrás dele e eu me enfiei na retaguarda. Utilizando as mãos enluvadas, nos impelimos para a frente e deslizamos fazendo grande algazarra. Íamos cada vez mais depressa.
No trajeto havia uma cabana, da qual nos aproximávamos a grande velocidade. O tobogã precipitou-se pela montanha abaixo como uma nave espacial rompendo o frio do espaço exterior. Andy apavorou-se. “Saltem!”, ele gritava. “Saltem! Saltem!” As galochas de Andy tinham ficado presas debaixo da parte da frente do tobogã onde ele se agitava, balançando em todas as direções. Lembro que ele tentou inclinar-se para trás para se libertar, mas Anne, que estava atrás dele, não podia mover-se. Eu os empurrava para a frente pela retaguarda, segurando-os desamparado. A cabana aproximou-se rapidamente. “Saltem! Saltem!”. O tobogã estava a menos de 20 jardas da cabana posicionada no trajeto direto para uma horrível colisão.
Anne estava como se visse a morte diante de si, a cara paralisada de terror. Andy soluçava. O tobogã passou por baixo de uma grade de amarração e foi detido pelo nosso pai, coisa de cinco pés antes da cabana. Logo que caímos do trenó, Anne balbuciou histericamente como eu havia os empurrado para a frente e não os deixara escapar. Andy continuava a chorar. Steve e Clare tentaram tranquilizar os dois enquanto eu permanecia perto, olhando contente: “Estávamos só nos divertindo”, eu disse.