Severo andava inquieto por sua masmorra sentindo-se totalmente irritado e de péssimo humor. Mas também, não era nada à toa, com aquele dia terrível que estava tendo! Não bastava aquele sonho extremamente desconfortável com Lilly, também tivera que encarar os seus olhos vivos novamente em seu filho, Harry... Potter! Como ele odiava aquele garoto! Odiava todos os Potter, definitivamente. E, além disso, como que para coroar a noite, revira Velerie. Porque será que de repente, depois de tantos anos, todo o seu passado voltava para atormentá-lo? E ele estava completamente certo de que a inquietante mulher viria procurá-lo. Afinal, o que mais ele poderia esperar de alguém que fora da Grifinória, sempre metidos no que deviam?!Seus pensamentos confusos foram interrompidos por uma leve batida na porta de sua sala.
- Sev? – Reconheceu a voz suave dela, epara sua própria surpresa imediatamente sentiu-se um pouco mais calmo. “Não seja idiota Severo! Você sabe o poder que ela tem”, pensava consigo enquanto caminhava em direção à porta. Quando girou a maçaneta, encontrou aquele par de olhos acinzentados, que, apesar de suas habilidades na arte de ler mentes,quase sempre eram um grande enigma pra ele.
- Velerie Moon... A que devo o prazer de sua visita? -
Ela se sentiu desconfortável pelo óbvio tom irônico da voz dele. Se realmente era um prazer, definitivamente não foi o que pareceu.
- Bom, depois de tanto anos, achei que meu sono poderia esperar enquanto conversávamos. Você não?
Snape pensou em rebater aquela pergunta com algum desaforo. Mas por alguma razão não conseguia sequer suportar a ideia de infligir mais sofrimento àquela mulher, que afinal de contas era sua amiga mais antiga e mais íntima.
- Sente-se. – Ele limitou-se a dizer, enquanto conjurava duas poltronas de veludo vermelho, uma de frente para a outra, no centro da sala.
Velerie sentou-se e esperou que ele também se acomodasse antes de prosseguir. Observava a masmorra curiosa. As paredes eram cinzentas e frias, haviam frascos com animais embalsamados nas estantes. Era um lugar meio inóspito, talvez até ameaçador. Ela com certeza jamais conseguiria viver ali e se admirava que Severo conseguisse.
- É bom ver você Sev. – À menção do apelido carinhoso que lhe fora dado por Lilly, Severo pareceu transparecer um enorme cansaço.
- O que você faz aqui depois de tantos anos, Velerie?! – Ele a encarou, insistentemente.
- Eu estou... Simplesmente de volta. – Ela suspirou. – Não é o suficiente, Sev?
- O SUFICIENTE?! – Ele explodiu. Sua fúria finalmente transpareceu além do semblante indiferente. – Eu procurei você quando mais precisei! Quando estava submerso em raiva e dor e medo... E você... Você me virou o rosto, Velerie. Disse que era minha culpa e que nunca mais queria me ver, NUNCA MAIS! Pois bem, não precisa vir aqui bancar a boa moça, pode ir embora agora... – Ele havia levantado da poltrona e permanecia de costas para ela, parado em frente a uma mesinha no canto da masmorra. Seus punhos estavam fechados e apoiados contra a madeira, a pele ficando cada vez mais branca por causa da força com que ele apertava a superfície, furioso. Ela sabia que ele estava certo. Sabia que tinha traído a confiança dele e aquilo era uma das coisas que mais doíam em toda a sua vida.
- Sev... Sev, por favor, entenda... Todos cometemos erros. Você cometeu os seus e eu, os meus... – Ele virou o rosto e seus os olhos intensamente negros encararam os dela, azuis. Ficaram ambos se olhando por um longo tempo, sem ter coragem de dizer as coisas que sabiam que precisavam ser ditas.
– Me desculpe. Desculpe-me por ter dito que era sua culpa Lilly ter morrido. Eu era jovem demais, Sev, eu não entendia o que o seu amor por ela poderia fazer. Ou o que o seu ódio por Tiago poderia fazer...
- Não ouse vir aqui e relembrar essas coisas do passado. Não depois de tantos anos... – Ele tentava manter a voz firme e controlada, mas Velerie o conhecia o suficiente para saber que, por baixo de toda aquela máscara, Severo sentia uma enorme dor, um fardo maior do que tudo.
- Sev? Você pode, por favor... Em nome de tudo que eu disse e de tudo que você sabe... Pode perdoar uma amiga que sente muito sua falta?
Snape engoliu a raiva por um segundo e refletiu sobre as coisas. Decidiu que não haveria mal em, depois de tantos anos, agora que estava controlado, que não sentia mais aqueles sentimentos bobos da juventude - como o afeto e os ciúmes - deixar que Velerie entrasse na vida dele novamente. Suspirou derrotado enquanto voltava a sentar na poltrona no centro da sala.
- Tudo bem Velerie... Vel... – Ele deu um leve sorriso amargo. – Tudo bem. Você tem razão. Eu não quis admitir aquela noite, mas você tinha razão. Foi minha culpa. – Ele disse enquanto apoiava os cotovelos nos joelhos e cobria o rosto com as mãos. Sentia-se muito cansado de tudo.
Velerie sacudiu a cabeça, desconfortável por aquela situação. Levantou de sua poltrona e se ajoelhou na frente de Severo Snape.
- Sev?! – Ela chamou o nome dele e fez com que ele a olhasse. – Não se sinta assim. – Então pôs a mão direita sobre o peito esquerdo dele e começou a falar com a voz embargada. – As pessoas se acostumaram a acreditar que você não tinha um coração, e até você começou a crer nisso, Sev. Mas eu, eu e Lilly, sempre soubemos que você tinha um dos maiores corações do mundo, à sua própria maneira. – Snape a olhou inexpressivo, esperando que ela terminasse seu pequeno discurso. – Agora que ela se foi, e eu sou a única que ainda está aqui...Não vou mais embora. Não vou mais embora até que você também entenda, e se conheça, e acredite que...
Provavelmente ela teria falado muito mais se Snape não tivesse posto a mão sobre a dela, e dito num tom totalmente sarcástico:
- Você passou tempo demais com os trouxas, Vel...E provavelmente bebeu vinho demais no banquete também... – E então ele se levantou e abriu a porta da masmorra. – Você tem o que queria, somos amigos de novo, não é assim?! Agora, se não se importa, eu realmente preciso dormir, tenho aulas para dar amanhã e não sou um homem irresponsável com minhas obrigações.
A raiva tomou conta dela, transparecia em seus poros e queimava em seus olhos azuis. Como poderia aquele homem, depois de tudo que haviam passado, tratá-la daquela forma fria? O pensamento de que talvez Snape fosse mesmo o frio e calculista Comensal da Morte de que todos falaram a respeito no passado cruzava sua mente... Mas então, antes que pudesse falar qualquer coisa que piorasse ainda mais a situação, Velerie lembrou-se de que Snape tinha a confiança de Dumbledore – e, se ela era insegura quanto ao seu próprio julgamento em relação àquele homem, jamais o seria a respeito do julgamento do diretor.
- Boa noite, Prof. Snape. – Ela despediu-se friamente e foi embora, deixando para trás um Severo Snape completamente desconcertado e lívido em fúria.